Jineologî: A ciência da libertação das mulheres no movimento curdo

Ao terminar a minha primeira semana no norte da Síria um amigo meu dos Estados Unidos escreveu-me várias mensagens animadas perguntando: “Hey! Como estão as coisas por ai? Você está seguro? Por onde começar, foi a grande questão. Havia tanto o que gostaria de contar-lhe naquele momento sobre o quanto minha vida foi capaz de mudar em apenas sete ou oito dias mas, eu sabia que não seria capaz de explicar tanta coisa com o pouco tempo que tinha (achar sinal de Wi-Fi não é algo simples, menos na estrada) e o fato de que a escrita não é o melhor meio de comunicar emoções profundas relacionadas ao meu testemunho de uma mudança social tão monumental (não existem emojis que possam expressar os conceitos revolucionários). Minha mente correu quando pensei nos dias que viraram semanas, a semana que pareceu-me um ano. Mas, passados os vinte segundos pensando nisso, eu simplesmente respondi: “Homem! É incrível. Uma profunda revolução social. As mulheres realmente tocam as coisas por aqui.”

Bem, isso pode ter sido muito simplificado. Seja como for, culpo nosso excesso de confiança na tecnologia onde as ideias devem ser compactadas ao máximo em qualquer reducionismo que venha com sentimentos expressados. As mulheres, naturalmente, não tocam as coisas em Rojava – não é como se a sociedade tenha sido virada de cabeça para baixo, especialmente da noite para o dia, de modo que uma sociedade profundamente patriarcal tornou-se um matriarcado (nem esse é o objetivo). Além disso, não estava tentando romantizar a revolução ou cair na armadilha (que eu tentarei ao máximo não reproduzir na escrita) de ser apenas outro homem ocidental que de alguma forma passe a fetichizar o papel das mulheres na guerrilha curda, como boa parte da nossa grande imprensa tem feito com a representação das mulheres das Unidades de Proteção da Mulher (YPJ). Ainda assim, o ponto que estava tentando mostrar ao meu amigo mantém sua validade: a revolução de Rojava é fundamentalmente, no seu núcleo, sobre a libertação das mulheres dos grilhões da degradação patriarcal que está envolvida inerentemente no capitalismo.

Primeiras impressões sobre o papel central das mulheres na luta:

Não demorou muito tempo depois da minha chegada em Rojava para ver este conceito na prática. No primeiro lugar que cheguei, atravessando a fronteira entre o Iraque e o norte da Síria, havia um ponto militar que estava sendo patrulhado por mulheres da Asayish ou, segurança da autoadministração democrática (aqui quase que eu uso o termo “tripulado por mulheres”, um erro embaraçoso e revelador sobre o tipo de linguagem que normalmente usamos). Foi difícil compreender que poucos quilômetros deste ponto os fascistas do Estado Islâmico ainda mantêm o domínio da cidade de Raqqa onde as mulheres são confinadas a uma vida de escravidão e degradação.

Após algumas horas da minha chegada na cidade da Qamishlo,  a primeira ordem do dia para mim e para o grupo de internacionalistas com quem eu estava seria a de passar por uma série de palestras para ter uma melhor aproximação aos fundamentos da revolução que havia sido iniciada há meia década atrás (descobri pouco tempo depois que este processo está em curso há várias décadas). Estas palestras focaram nos conceitos-chave incluindo a história do movimento de libertação curda, internacionalismo e a luta das mulheres. As aulas sobre o movimento das mulheres foram divididas em duas sessões, uma que focava na história do movimento de mulheres e uma outra na “ciência das mulheres” que em kurmanji chama-se de Jineologî.

A seriedade com que os camaradas apresentam a educação sobre os papéis fundamentais das mulheres na transformação da sociedade nas quatro partes do Curdistão (que agora é estendida às cidades e vilas árabes que estão sendo liberadas pelas unidades YPG/YPJ e das Forças Democráticas Sírias) mostraram-me claramente que, nesta luta, a emancipação das mulheres não é apenas uma nota-de-rodapé ou qualquer coisa que deve ser comentada mas que, na prática, está fadada a ficar em segundo plano na prática. Antes de chegar em Rojava eu já sabia que o movimento curdo na Turquia (nas regiões curdas chamadas Bakur) e no norte da Síria aplicavam o sistema de co-presidencialismo em que, para cada cargo de liderança ocupado por um homem, uma mulher deveria ser eleita também para trabalhar conjuntamente. Eu sabia que havia um sistema de organização autônoma das mulheres em que as YPJ são apenas um exemplo. Mas é curioso começar a compreender o que esta estrutura organizacional oficial significa em termos tangíveis. Antes de entender na prática, contudo, a educação fornece um quadro necessário para compreender como foi possível o início desta revolução. 

Tornando a libertação das mulheres prioridade no Movimento de Libertação Curdo:

Se a sua única informação sobre o mundo vem apenas pela grande mídia ocidental, você talvez seja perdoado por acreditar que a razão pela qual na revolução em Rojava podem ver-se mulheres lutando na linha de frente contra o chamado Estado Islâmico é porque os curdos tem algo inerente a eles que permite que isso seja possível.

As principais narrativas dão a impressão, quando não frequentemente criam o argumento, de que naturalmente “os curdos” estão mais predispostos à igualdade de gênero do que outros povos da região, especialmente os árabes. Claro, outro elemento que faz com que a grande imprensa ocidental forneça seu tempo de transmissão é o papel do YPJ na guerra da síria, o que é usado conjuntamente com a venda da islamofobia, especialmente para equiparar Daesh com o Islã e caracterizar erroneamente o YPJ e os “curdos” como sendo a vanguarda de um tipo de secularismo  “ocidental” em orientação (você teria dificuldade em encontrar relatórios que mencionassem o fato de que a maioria dos curdos são muçulmanos sunitas).

A razão pela qual são necessárias uma série de aulas para internacionalistas que chegam a Rojava sobre a história do movimento das mulheres curdas é tão essencial porque  fornecem uma correção para todos os tipo de equívocos trazidos pelos nossos conhecidos meios de comunicação. A realidade é que, longe da ideia de que “os curdos” têm a igualdade de gênero em seus genes (pode-se ver o caso do Curdistão iraquiano hoje em dia para fazer o argumento oposto), as bases para o YPJ e todas as organizações de mulheres no norte da Síria foram colocadas hoje pelo movimento que iniciou-se há mais de 40 anos.

Uma visão ampliada da história:

Os hevals (companheiros, camaradas em Kurmanji) estavam interessados em mostrar uma perspectiva histórica sobre como o sistema de opressão patriarcal pode, no máximo, representar 2% de tudo, uma vez que vários exemplos de organização social e modos de vida precederam as “rupturas sexuais” que deram origem à posição dominante dos homens na sociedade que muitas vezes pensamos ser de alguma forma natural. Até hoje, há evidência dessas sociedades antigas na Mesopotâmia, algumas delas matriarcais (matrilineares), ainda podem ser vistas em muitas regiões montanhosas do Curdistão que eram menos suscetíveis a invasões estrangeiras, permitindo assim que as comunidades mantenham suas crenças “naturais” (os Yezidis são um exemplo disso).

Para os revolucionários do Curdistão, é insuficiente falar simplesmente sobre as heroínas de hoje ou mesmo das últimas quatro décadas. Os exemplos dados pelas mulheres que resistem ao patriarcado no Oriente Médio começam muito antes do que se pode imaginar. A resistência de Nefertite aos sacerdotes e ao faraó em 300 a.C. é citada ao lado de exemplos como a recusa da rainha Zenobia de seguir os ditames romanos em Palmyra no século III. Após a primeira divisão do Curdistão, Xanimzade liderou a resistência tribal contra os massacres cometidos pelo Império Persa, e ela foi seguida por nomes como Halime Xanim que resistiu ao governo do Império Otomano.

Os exemplos das mulheres curdas do século XX que são precursoras às mulheres do YPJ são aparentemente infinitos. Adile Xanim ajudou a reunir 56 tribos em uma confederação no Irã moderno antes de sua morte em 1924. Zarife (1882-1937) era uma líder amplamente conhecida entre a população Alevita que foi executada devido a um traidor que entregou-a às autoridades turcas. No mesmo ano do massacre do povo curdo em Dersim, uma mulher chamada Bese que lidereva um levante se atirou das rochas para não ser capturada. Nas décadas seguintes mulheres como Gulazer e Mina Xanim desempenharam um papel fundamental no estabelecimento do primeiro estado socialista curdo, a República de Mahabad de curta duração (1946).

Antes do estabelecimento do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) em 1978, a história de Leyla Qasim serviu de inspiração para a luta das mulheres. Leyla iniciou uma das primeiras Uniões de estudantes curdos em Bagdá e planejava sequestrar um avião para chamar a atenção para a causa curda (as comparações podem ser trazidas aqui para Leila Khaled, a revolucionária palestina, cujo ato de sequestro político em nome da Frente Popular pela Libertação da Palestina ajudou a promover essa luta de libertação nacional). Ela foi pega antes que seu plano pudesse se materializar e foi executada pelo estado iraquiano em 1974.

O Curdistão como uma colônia, as mulheres como a mais antiga colônia:

Após o estabelecimento do PKK na região curda ocupada pela Turquia, o movimento de libertação foi elevado a um nível superior. Os fundadores do PKK, entre eles Abdullah Öcalan, consideraram necessária a criação do partido, uma vez que a esquerda turca desconsiderou a questão curda colocando o chovinismo nacional como prioridade. Isso entrou em confronto com a tese do partido recentemente estabelecida, na qual afirmava-se que o Curdistão era uma colônia e que uma luta de libertação nacional era uma necessidade histórica.

Entre os fundadores do Partido estava Sakine Cansiz, que foi assassinada em Paris em 2013, conjuntamente com outras duas mulheres líderes, Fidan Doğan e Leyla Şaylemez. Sakine desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento e crescimento da organização e um papel central no acolhimento do partido à consideração da igualdade de gênero como parte primária de sua composição. Seu salto para a política era em si um ato de rebelião contra a estrutura familiar tradicional que visava mantê-la em servidão. Refletindo sobre a decisão de se envolver em atividades políticas, ela disse: “Em certo sentido abandonei minha família. Não aceito essa pressão, insistindo no revolucionismo, foi assim que fui para Ancara. Em segredo, é claro”.

O relacionamento entre Sakine e Öcalan é importante, pois ambos estavam em posições de liderança na organização. Foi ele quem, através da reflexão pessoal e da autocrítica de suas próprias relações com as mulheres, começou a questionar a estrutura familiar patriarcal na qual as mulheres sempre foram colocadas na posição de ser um objeto. Ele concluiu que era necessário passar por uma transformação pessoal para “matar o macho” dentro de si mesmo, observando como a sociedade o moldava por dentro. Essas reflexões foram além deste olhar para trás. Ele enxergou em sua vida outros casos de opressão e subjugação das mulheres,  como uma amiga de infância que foi casada à força com um homem mais velho ou sua mãe viver no que ele entendia como uma vida análoga à prisão, dentro de sua própria casa. O mais importante para a sua decisão de abordar a questão da liberdade das mulheres em um nível mais alto, no entanto, foi o relacionamento dele com Fatma, outra fundadora do partido que ele viu como alguém da qual ele usou para seus próprios interesses.

Apesar de Öcalan promover o conceito de “matar o macho” e conceitos teóricos avançados relevantes para a libertação das mulheres, inclusive o que afirma que as mulheres constituíam a colônia mais antiga da humanidade, ele também entendeu que ele – e os homens, em geral –  não poderiam liderar esse processo. Ele é visto dentro do movimento como alguém que deu sua força para o desenvolvimento do processo, mas que também ativamente encorajou as mulheres a liderar sua própria libertação de forma autônoma dentro do partido e outras organizações no movimento mais amplo.

Base teórica da jineologî:

Hoje, o movimento revolucionário que se agrupa entorno do Grupo de Comunidades do Curdistão (KCK), nas quatro partes do território curdo, avança na ciência das mulheres, ou Jineolojî, como princípio teórico e prático do processo revolucionário. No entanto esse conceito, adotado em 2008, foi o ponto culminante ideológico de décadas de experiência na organização.

Além do conceito de Öcalan de “matar ao macho”, outra ideia fundamental é a da “teoria da separação” (ambas apresentadas em 1996), que afirma que as mulheres deveriam ter controle de suas próprias organizações. Considerava-se que a revolução não pode ser feita para as pessoas, mas sim, pelo povo. Deve-se considerar que a revolução não pode ser apenas para as mulheres mas, deve ser feita por mulheres. A teoria da separação também significa que as mulheres devem se afastar de relacionamentos baseados em hierarquias. Podemos ver a seriedade destes princípios na prática já que as relações românticas e o casamento dentro das fileiras dos quadros no movimento são inexistentes. Parte disso é também para proteger as organizações da adoção de uma abordagem liberal ao trabalho e à vida.

A pesquisa sobre o papel das mulheres ao longo da história da Mesopotâmia também tornou-se uma parte fundamental do trabalho do movimento no final da década de 1990. No mesmo ano em que Öcalan foi capturado no Quênia pelo Estado turco (1999) o PJKK (Partido das Mulheres Trabalhadoras do Curdistão) foi criado como um partido feminino, embora posteriormente acabou sendo substituído por outras estruturas autônomas como o PJA (Partido das Mulheres Livres). Na década de 2000, novas teorias foram desenvolvidas, incluindo a “teoria da rosa”, que considerava que as mulheres podem “parecer frágeis mas, tem espinhos para se protegerem”. Na sequência, cria-se o novo paradigma do Confederalismo Democrático que foi adotado pelo partido e pela União das Comunidades do Curdistão (KCK) em 2005, um “paradigma de uma sociedade democrática e ecológica com base na libertação das mulheres” foi defendido em 2003.

Pela autodefesa; contra o feminismo liberal e o orientalismo

Na metade do meu primeiro dia de estudos sobre a libertação das mulheres no Curdistão pude entender por que é tão importante começar com essas aulas antes de que os visitantes possam mergulhar diretamente nas organizações ou serem responsáveis por questões concretas diárias. Os instrutores frequentemente falavam sobre como a revolução não é sobre assumir o poder e, então, construir algo novo, mas lutar para superar a ideologia do capitalismo enquanto a revolução se organizava, algo que o movimento já faz há décadas antes de que Rojava ganhasse autonomia em 2012 com o estabelecimento da autoadministração democrática.

A chave para entender Jineolojî é que a autodefesa não significa apenas pegar em armas; mas, na verdade, se manifesta mais frequentemente na construção de estruturas e organização. Como um líder do movimento me disse com um zelo revolucionário palpável, “a autodefesa também deve começar na mente. Se você se vê como uma vítima, não pode superar a opressão”.

Durante o segundo dia de educação, houve uma atividade sobre a história do pensamento feminista global, incluindo a primeira onda dos séculos XIX e XX que se concentrou em campanhas para o direito de voto, igualdade de direitos civis e direitos trabalhistas; a segundo Onda (1970-1990) que se caracterizou por slogans como “o pessoal é político” e “meu corpo pertence a mim”; e a terceira onda desde 1990 em que a desconstrução dos gêneros ocupa um lugar central.

Foram importantes e de interesse crítico – para aqueles da minha classe que vieram de sociedades ocidentais-  as reflexões sobre como o Estado tentou liberalizar o movimento radical das mulheres canalizando recursos para várias organizações, que teve como efeito o de trazê-las ao âmbito do sistema capitalista. Além disso, os instrutores falaram da vertente do feminismo liberal ocidental que muitas vezes é de natureza orientalista e aludiu a grupos como a FEMEN que equiparam o Islã à opressão das mulheres. Tais grupos promovem a narrativa dos imperialistas que visam subordinar o Oriente Médio à sua marca de modernidade capitalista em nome da liberdade. Uma mulher muçulmana devota que também é parte dedicada da revolução de Rojava falou-me alguns dias depois sobre seu hijab: “não é importante o que está sobre a minha cabeça. É importante o que está na minha cabeça”.

Conceitos principais da Jineologî (a ciência das mulheres)

A abordagem flexível e não dogmática que recebi do movimento de liberação curdo sobre a ideia da revolução e libertação das mulheres foi esclarecida durante as instruções que recebi sobre o significado da Jineolojî hoje, como ciência da libertação das mulheres. Por exemplo, para a confusão inicial e a frustração de alguns dos internacionalistas, os instrutores muitas vezes não tinham respostas reduzidas ou secas para certas questões. Afinal, Jineolojî sustenta que não existe uma verdade única e absoluta, mas que o trabalho feito pelos revolucionários em defesa da humanidade pode dar sentido à vida e assim nos aproximar da compreensão da verdade. No entanto, eles eram bem claros sobre o fato de que, simplesmente porque não reconhecem “uma única verdade”, isto não significaria uma apropriação da abordagem liberal da “minha verdade”, na qual a análise subjetiva da realidade de todos merece validação mesmo que seja absurdamente atrasada ou reacionária.

Parte da análise de Jineolojî é perceber que tudo e todos estão vivos e não cair na dicotomia do material versus o imaterial. Isso pode parecer uma abordagem bastante metafísica para os camaradas do ocidente tão acostumados ao materialismo e, muitas vezes, positivismo. A ideologia também reconhece a unidade na diversidade, entendendo que os avanços são feitos com solidariedade e cooperação, e não através do apagamento da individualidade (em oposição ao individualismo).

Jineolojî também reconhece o “Princípio do Indefinido”, no qual, embora o futuro não possa ser previsto, a humanidade pode analisar que existem diferentes opções e caminhos a serem tomados e, portanto, podemos intervir para mudar os processos. A dualidade foi mencionada muitas vezes durante a instrução, e foi uma ideia que foi mantida durante todo o curso, reaparecendo durante minha visita a Rojava. Como me falaram a guerra, que dá continuidade à raiva, e a revolução que se desenvolve ao mesmo tempo: “vendo que há luz tomamos consciência da escuridão. Um não pode existir sem o outro. Há partes contraditórias”. Outros aspectos da ideologia incluíam não separar sujeito e objeto, além de criar a unidade entre inteligência emocional e analítica. Como o instrutor deixou claro, “por um lado criticamos o racionalismo. A inteligência emocional desempenhou um papel fundamental no período neolítico. Nós podemos ser ambos, podemos pensar e sentir”.

Cinco princípios da ideologia da libertação das mulheres:

Os conceitos que falei ajudam a ilustrar o principal trabalho teórico que tem sido criado na ciência das mulheres mas, os princípios reais da ideologia podem ser sublinhados como sendo:

  • Welatparezi (“Patriotismo”):
    • Rejeitar o distanciamento, o colonialismo, a assimilação imposta às mulheres;
  • Liberdade de pensamento / Opinião Livre:
    • A mulher deve tomar suas próprias decisões e fazer uma ruptura mental com as estruturas que dominam;
  • Organização autônoma das mulheres:
    • Somente se as mulheres tiverem a chance de se organizar (e de fato o fizerem) o patriarcado será superado;
  • Luta pela mudança:
    • Não se deve apenas fazer exigências ao opressor mas, deve-se lutar e conquistar direitos através da criação de alternativas;
  • Estética e ética:
    • As mulheres não devem aderir aos padrões de beleza ditados pela sociedade ou pelos homens.

Da teoria a prática:

Claro, a teoria sem qualquer tipo de aplicação prática não tem sentido, e o Movimento de Libertação Curdo passa por um processo constante aperfeiçoamento e desenvolvimento de suas teorias relacionadas a emancipação de metade da raça humana. Mesmo dentro do próprio movimento houveram alguns incidentes – incluindo pessoas envolvidas na liderança – que mostraram como as próprias organizações revolucionárias não estão imunes a atitudes patriarcais/machistas. Por exemplo, no início algumas mulheres que participaram da luta armada no norte do território (Bakur) sofriam com a atitude de alguns homens dentro do PKK que negavam a sua participação em cargos ou atividades as quais, acreditavam eles, deveria se ter uma postura ‘viril’ para realizar. O argumento de alguns homens na liderança era que as mulheres eram muito emocionais e suaves para a guerra, e que, portanto, era melhor colocá-los em papéis fora da guerrilha (domésticos). Alguns comandantes queriam que suas camaradas mulheres que estavam na guerrilha usassem lenços para cobrir seus cabelos. Ao ouvir falar disto, uma jovem guerrilheira, Heval Beritan,  sugeriu que as mulheres construíssem suas próprias forças militares. A organização autônoma e a separação de homens e mulheres guerrilheiras que se seguiu teve o efeito de fazer com que homens e mulheres tivessem que cuidar de todas as tarefas (por exemplo, os homens eram agora completamente responsáveis pela cozinha).

A história de Heval Beritan é um evento que ilustra o fato de que as mulheres estão, no mínimo, a par com os homens em termos de serem capazes de realizar cada tarefa revolucionária e para desempenhar qualquer papel. Ela foi inicialmente um jornalista mas acabou sendo comandante na guerra, isso porque ela queria desempenhar um papel mais prático (mão-na-massa) na luta. Em 1992, durante a Guerra em Bakur, ela lutou até sua última bala e, em vez de submeter-se a ser capturada pelas forças do Partido Democrático do Curdistão (KDP) (aliados ao governo turco e inimigos da guerrilha do PKK) ela preferiu jogar-se de uma montanha cometendo suicídio do mesmo modo como Bese tinha feito há mais de cinquenta anos antes durante a guerra em Dersim.

As vidas de Beritans, Sakines e outras incontáveis mulheres revolucionários no Curdistão transformam-se no exemplo prático para as mulheres que passaram a formar as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ). Hoje, a revolução das mulheres em Rojava não seria mais que um sonho impossível sem os exemplos destas Shehids (mártires) que deram suas vidas pela luta pela liberdade não só para os curdos, mas para as mulheres em todo o mundo. Todos os dias, o solo de Rojava é nutrido pelo sangue de mulheres que caem em combate, lado a lado com seus companheiros do sexo masculino, como iguais. O autossacrifício daquelas que, como Arin Markin que se explodiu durante a Batalha de Kobane em vez de ter sido feita prisioneira pelo Estado Islâmico, ilumina o caminho das mulheres, assim como faz a Comandante Rojda Felat da YPJ/SDF que está na vanguarda na ofensiva em Raqqa. Seus exemplos são a manifestação prática da ideologia desenvolvida ao longo de décadas de luta, que o movimento acredita que tem o potencial para não só libertar o Oriente Médio, mas a toda a humanidade.

 

Parte 1 de 2.

Leia a segunda parte AQUI

http://www.kurdishquestion.com/article/3923-jineoloji-the-science-of-women-039-s-liberation-in-the-kurdish-movement

*Tradução por Florência Guarch. Tradução originalmente extraída de: http://noticiasrojava.blogspot.com.br/2017/06/jineologi-ciencia-da-libertacao-das.html

 

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